Depois de ver hoje um filme de teor militar, recordei o meu tempo de tropa em 2007, já lá vão quase 20 anos. Eu era um miúdo sem barba que nunca saiu da aldeia. A romantizar com os filmes do Rambo, decidi que queria ser militar.
Aquilo matou-me literalmente; a parte física era "fácil" para um tipo que estava habituado ao trabalho do campo mais as aulas de educação física. O pior era o psiqui, o regresso a casa ao fim de semana era um pesadelo logístico que consumia a pouca energia que restava. Essa rotina da viagem, o pavor de adormecer na camioneta da Rede Expressos ou no comboio da CP e acordar em Santa Apolónia, a ansiedade de olhar para o relógio a ver as horas a passar no domingo à tarde, por vezes, moía mais o juízo do que a própria instrução militar.
A Ilha Tecnológica: Em 2007 não havia redes sociais no bolso nem entretenimento infinito para anestesiar a cabeça. O pessoal entretinha-se, quando podia, claro, com batalhas de almofadas, que acabavam em confrontos físicos.
A humidade e a chuva do Porto na instrução militar têm uma capacidade única de entrar pelos ossos, alguns camaradas entrava em pré-hipotermia.
A Fome da Primeira Semana: O racionamento do caldeirão militar nunca foi desenhado para banquetes. Para quem vinha habituado ao prato cheio em casa e ao trabalho duro do campo, a quebra de calorias nos primeiros dias era um choque biológico até se aprender a arte de "sobreviver" com as bolachas, conservas ou chocolates escondidos no armário.
Em 2007 as Forças Armadas transformaram-se, para uma fatia considerável de recrutas, no único "plano de emergência" disponível. Acolhia quem vinha de contextos familiares destruídos, jovens com antecedentes no limite da marginalidade ou rapazes que simplesmente não tinham para onde ir nem o que comer. Só mais tarde com a crise, o desemprego jovem a ultrapassar os 35% a 40%, o Exército deixou de ser o parente pobre da sociedade para se tornar num emprego "seguro".
Numa era, que a informação era escassa, não se sabia muito bem o que esperar, mas no folheto que me deram no centro de recrutamento parecia promissor (risos).
Recordo a minha recruta em 3 fases, I ordem unida, aquela merda já enjoava, havia gajos que não sabia o que era direita e esquerda. II treino fisico, as famosas GAM (Ginastica de aptidão miliar) mas que chamavamos carinhosamente Ginastica até à morte. III fase tardia, alguma escassa ação com tiro real, sobrevivência na semana de campo.
O Capacete M1 (ou M63): O capacete de aço que ainda usavas em 2007 era o modelo derivado do M1 americano da Segunda Guerra Mundial (e da Guerra do Vietname), adotado por Portugal durante a Guerra Colonial. Pesado, desconfortável e com uma suspensão interna de lona que magoava a cabeça, era um fóssil operacional só mais tarde começamos a usar o kevlar (PASGT).
Fui colocado na arma de cavalaria EREC, esquadrão de reconhecimento. O Esquadrão de Reconhecimento tinha, no papel, a missão mais rápida e agressiva da Cavalaria: avançar à frente do corpo principal para bater o terreno, detetar o inimigo e recolher informação.
O grande balde de água fria da especialidade no Exército profissional dos anos 2000 era a transição abrupta do treino operacional para a manutenção da vida de quartel, ajudar na cozinha, no jardim, limpar bosta de cavalo. Fodasse
A cereja no topo do bolo era o Dia da Defesa Nacional (DDN). Para o Ministério da Defesa, o DDN era a montra de recrutamento para mostrar aos jovens de 18 anos que a tropa era "ação, tecnologia e adrenalina". Fazia-se uma Encenação Operacional: Era nessas escassas demonstrações para os jovens de fora que se gastava a pouca munição de salva e se metiam as Chaimites, as Pandur ou os Pandur/VBR a fazer manobras rápidas no terreno, era um teatro mas era fixe, sentiamo-nos mesmo operacionais. Ainda assim havia muito treino fisico.
Depois passei-me dali para fora.
Há um mito muito alimentado de que a instituição militar opera uma transformação ontológica na cabeça de um jovem — que te "faz um homem" para a vida inteira. Na verdade, a tropa ensina-te um conjunto de reflexos de sobrevivência social e adestramento comportamental que funcionam no contexto da caserna: engolir em seco, cumprir a ordem sem discutir, gerir a privação do sono e não dar nas vistas.
No início, o contraste faz-te sentir uma espécie de super-poder relativo. Olhas para os problemas dos civis — o stresse do trânsito, a pressa, a falta de pontualidade — e achas tudo uma brincadeira comparado com a instrução militar. Com o passar dos meses e dos anos, o organismo e a mente percebem que já não estão em estado de ameaça constante. A hipervigilância diminui, a necessidade de disciplina cega dissipa-se e as tuas características de base — a tua essência, a forma como foste criado na aldeia, a tua sensibilidade e as tuas inseguranças originais — voltam à superfície.
Olhando para trás, é fascinante ver a ironia psicológica deste meu percurso. Fugi da severidade do meu pai na aldeia para te ires meter voluntariamente na instituição mais severa e autoritária que o Estado possui — apenas para descobrir que o autoritarismo militar era igualmente estéril e desgastante.
A disciplina da aldeia aproximava-se até do mundo militar — no trabalho árduo da terra que o meu pai me exigia — e o rigor que a tropa testou não desapareceram. Simplesmente canalizei essa resiliência para onde ela realmente importava: aguentar as maratonas de estudo e trabalho a solidão da escrita, o rigor metodológico e a exigência dos estudos até ao Doutoramento.
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