o último Portugal.
Para mim, Portugal, digo com um pouco de mágoa, é o norte e o interior, de norte a sul. Para mim, Portugal são os velhos com rugas, com as mãos calejadas e dedos tortos.
Olhar brilhante, boina ou lenço posto, de mãos postas na missa. Esse é o Portugal, sofrendo o último sopro resistente dos esquecidos pelos governantes. Gente de porta aberta, de honra e de aperto de mão firme, como gesto de confiança.
E os novos?
Os novos, há os que se orgulham das suas raízes; aqui ficaram alguns; todos eles alguma vez saborearam a poeira do campo, o calor que queima a pele do verão e o frio que entranha nos ossos de inverno. O peso da enxada. Mesmo os que partiram, há um aperto que lhes dói no peito quando cá vêm, vão embora de lágrima no canto do olho.
A vida é dura, mas não há pôr do sol como no Alentejo ou nascer do sol como em Trás-os-Montes.
Esses sim, são o Portugal, vidas marcadas pelo trabalho, sofrido, pão e vinho e pela fé, sei lá? Podia ser pior, pensariam eles.
Não me venham com Lisboa, e com o fado, mais a porra do litoral e da praia.
Lisboa não se compara aos séculos de esquecimento que país deu ao interior. Éramos quase outro país; a prioridade não era a escola, era o trabalho do campo. Nos anos 80/90, havia pessoas sem casa de banho, crianças que usavam sapatos dois números acima, cheios de moncos e carranhas, mas eram bons cavaleiros e criativos. As professoras cravavam nos de porrada, porquê? não sei. Os da cidade nunca tal viram.
Ide para o caralho que vos foda.
Trás-os-Montes nunca poucos houve cujo o nome está nos livros, porque não tiveram as mesmas oportunidades dos outros. Mas quando os espanhois atacavam pela Galiza, eles que contem dos que cá estavam. O meu Portugal é esse, e não regionalismo, é estar com os meus, com a tribo, esquecida, sobreviveu e sobrevive com o pouco que ainda temos. Que felicidade era quando tinha os meus avós, meus queridos avós, tinham tanto amor, que não lhes cabia no coração.
Há uma dor que nunca ides perceber, de chegar à vossa aldeia e não ver ninguém na rua, mas dá para sentir, dá...as almas que ainda por ali vagueiam, ao por do sol. Não tenhais medo, não vos fazem, só nos tocam, no coração, tal como nós dali não quiseram sair, ali a terra os cobriu, e ali os comeu.