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terça-feira, 25 de maio de 2010

Tédio


“O tédio é um tecido cinzento e quente, forrado por dentro com a seda das cores mais variadas e vibrantes. Nele nós nos enrolamos quando sonhamos.”
Walter Benjamin

O sr.Carlos é o meu vizinho, a única vez que o ouvi falar foi quando expulsou a filha para fora de casa quando eventualmente, bem, soube que a mesma perdera a virgindade.
Cigarros pensativos á janela, televisão ligada até de madrugada, cruzes por todo lado, as orações que recita quando esta á janela, estas e outras coisas sempre fizeram do Sr. Carlos um homem misterioso, e um homem católico.
Há anos que é assim, o meu vizinho é reformado, trabalhou numa fábrica e fora militar, dissera-o uma vez sem grande vontade de continuar.

E agora mesmo, ele esta frente a minha porta. E que não lhe posso fechar a porta eu sei disso, a questão é como despacha-lo sem o ofender, mas aqui esta ele, á minha frente á espera que o mande entrar.
- Entre sr.Carlos
- Com licença
-Boa noite Eva, desculpa estar a incomodar-te a esta hora da noite.
- Não tem mal, Sr.Carlos, sinta-se á vontade sentou-se puxou de um cigarro amarrotado e tentou acende-lo, mas o isqueiro negou-lhe o acto.
- Raio parta o isqueiro.
Remexi o bolso e emprestei-lhe o meu, depois de acender o cigarro, aproximou-se da janela e atirou com o dele que não funcionava.
Peguei num Cd dos Pink Floyd e coloquei o som no mínimo e esperei que ele fala-se.
-Bem olha, nem sei como começar.
-Se vêem com a historia que viu demónios e anjos, já sabe que não acredito Sr. Carlos.
-Na verdade, não te menti, eu sou um anjo enviado pelo céu, há coisas que não percebes, e não vou perder o meu fôlego a tentar explicar-te, mas fui colocado aqui, com uma missão idêntica á dos vossos assistentes sociais.
- Você é um grande maluco, vou acender um cigarro.
- Força, mas espero que saibas que isso te faz mal.
- Mas você também fuma, há pois você é anjo, não me leve a mal mas você é doido. Disse-lhe com num sorriso
-Na verdade não sou nenhum doido Eva.
- Você precisa de dormir, deve estar cansado e esta é definitivamente uma boa conversa para continuar-mos amanha!
- Mas primeiro tenho uma proposta para ti, mas dá-me um cigarro por favor – disse ele num tom mais alto.
- Fale baixo homem são três da manha, fodasse.
Passei-lhe o maço, acendeu o cigarro, deu duas passas profundas, baixou o volume da aparelhagem. O silencio absoluto instalou-se, podia ouvir o som das minhas próprias duvidas.
- Queres saber, se Deus existe? Se o Diabo é mau?
- Porra homem, você tem de deixar de beber.
- Deduzo que a tua resposta seja, Sim!
- Sinceramente, não quero saber, sei mais dessas coisas do que você imagina e sei que você não é um anjo nem um demónio. Eu leio coisas e vou vendo uns filmes. Pisquei-lhe o olho!

- Eu sei que sabes, soube no dia que nasceste.
- Bem Eva – o velhote esboçou um daqueles raros sorriso, piscou-me o olho e colocou a mão no bolso, e retirou um objecto metálico que reconheci como uma pistola, uma Glock de 9mm capaz de matar um elefante.
Fui evadida por uma valente descarga de adrenalina, os meus músculos começaram a paralisar. O meu indefeso e estranho vizinho, nunca deixou de sorrir enquanto levou a arma á cabeça.

- Devias de deixar de escrever coisas idiotas no teu blog.
Premiu o gatilho fechando os olhos, e um estalido fez-se ouvir rompendo todo o silencio presente. Sorriu uma vez mais, colocou a arma no bolso com cuidado, e colocou-me a mão no ombro.
Sei que tens uma vida cheia de tédio, agora tens as respostas a todas as tuas perguntas.

Rik